Saturday, December 15, 2007

Com as “grandes obras públicas”, a “educação” é um dos mais velhos mitos portugueses. A quem queremos enganar?

Rui Ramos, Público, 12 de Dezembro de 2007

Não sei se é preciso ter lido The Purloined Letter
para compreender que, por vezes, a melhor
maneira de esconder uma coisa é deixá-la à
vista. É óbvio, por exemplo, que não há truque
mais efi caz para fazer um livro passar
despercebido do que colocá-lo entre outros livros. O
mesmo princípio permite-nos perceber por que é que
uma discussão pode ser um excelente meio de evitar
discutir um assunto. Parece-me que, demasiadas vezes,
é esse o caso do debate sobre a “educação” em Portugal.
Eis um tema de que se fala e discute muito. Mas perante
tanto escarcéu talvez não nos devêssemos surpreender
se um observador com a malícia de Dupin nos perguntasse
subitamente: que querem esconder? Ou até: a quem
querem enganar?
Em Portugal, a educação já despertou “paixões”, justifi
cou sempre “preocupação” e continua a sugerir as
maiores “esperanças”. Quando alguns portugueses não
sabem o que fazer a propósito disto e daquilo, é quase
certo que um deles dirá, com um suspiro, que a educação
é a “única solução”. Isto é assim há muitos anos. Com as
“grandes obras públicas”, a “educação” é um dos mais
velhos mitos portugueses. A única coisa que mudou foi
o nome: ao princípio, chamavam-lhe “instrução”. Com
obras públicas e educação, esperaram sucessivos governos,
desde o século XIX, revolucionar pacifi camente
Portugal, fazer dos portugueses cidadãos tão ilustrados
e produtivos como os ingleses, e do país uma Suíça com
mar. O computador substituiu o giz e o quadro, a locomotiva
a vapor deu lugar ao TGV, e o macadame ao alcatrão,
mas crença persistiu e os argumentos mantiveram-se.
Fontes Pereira de Melo dizia que, quando toda a gente
andasse de comboio, o país estaria salvo. Hoje, há quem
acredite que para nos salvarmos bastaria cada cidadão
tirar pelo menos um mestrado.
E para que serve todo este fervor e piedade? Talvez para
nos poupar a enfrentar certas coisas. Nos últimos 20 anos,
os governos portugueses efectuaram o maior investimento
de sempre em educação e obras públicas. Em termos
europeus e em relação aos recursos disponíveis, nenhum
outro país se terá esforçado mais. O resultado? A contínua
descida das taxas de crescimento e o empobrecimento
relativo do país desde 2000. Alguém discute isto? Não.
Discute-se se a escola pública é pior ou melhor do que a
privada e se o aeroporto deve ser na Ota ou em Alcochete.
Nalguns casos, é claro que as pessoas já nem sabem o que
dizem: veja-se o caso dos defensores da escola pública,
que desculpam os seus maus resultados, porque, aparentemente,
é muito frequentada por pobres (ou “casos
problemáticos”, como agora se diz) – sem perceberem
que estão a confessar que a milagrosa “educação”, afi nal,
não faz milagres. Hoje, para ter bons resultados escolares,
convém ser rapariga, ter uma família da classe média e
viver nos centros urbanos do litoral.
Peço aos crentes o favor de não me tratarem já como
herege. Não, não desejo viver entre uma massa de analfabetos
condenados a andar por veredas de terra batida.
Leio o seguinte num livro bastante respeitável (Que Faire?
Agenda 2007, de Nicolas Baverez): “No século XXI, o aumento
de um ano da duração média dos estudos induz
um aumento de 6 por cento da produção a longo prazo.”
Não quero discutir a hipótese. Quero discutir antes os
expedientes inspirados por essa hipótese. É que a partir
da frase citada a tendência de muitos foi para deixar de
levar a sério tanto a educação, como o crescimento da
riqueza.
A “educação”, para ser efectiva, tem de ser muito mais
do que passar certifi cados. A Finlândia, como revelou o
último relatório do PISA a semana passada, não tem apenas
muitos diplomados: entre os países da OCDE é aquele
em que os alunos têm mais conhecimentos. Quanto a
Portugal, a carta do professor aposentado Domingos Cardoso
acerca da sua experiência nos cursos de educação
e formação dá uma ideia inquietante: professores que
não conseguem ensinar e “estudantes” que não querem
estudar, todos comprometidos numa imensa fraude estatística.
Se tudo se resumisse a passar tempo na escola
e à outorga de diplomas, não teríamos problemas.
Mas talvez também não tivéssemos problemas se a
questão fosse apenas a de preparar alunos para se portarem
bem nos testes do PISA. É difícil imaginar, hoje
em dia, uma prosperidade sustentável sem uma força de
trabalho instruída, mas nenhuma façanha académica, só
por si, garante o crescimento da riqueza. Aliás, tal como
resultados modestos, em certas circunstâncias, não impedem
a prosperidade (o Luxemburgo é um dos membros
mais ricos da UE, mas a performance dos seus alunos
está abaixo da média da OCDE, e pouco acima da dos
estudantes portugueses). Isoladamente, uma educação
de qualidade transformar-nos-ia talvez em exportadores
de diplomados.
O actual debate da educação, ao fugir às questões mais
difíceis, tem dois efeitos perversos: primeiro, espalha a
crença de que para os nossos problemas existem soluções
indolores, sob a forma de
expedientes que dispensam
esforço e tempo; segundo,
alimenta guerras do alecrim
e da manjerona (como
a do público versus
privado) que impedem o
debate directo acerca daquilo
que mais importa: o
tipo de vida que queremos
(ou podemos) levar neste
país. Deve tudo continuar
centrado no endeusamento
do Estado, ou é possível um
outro modelo social, assente
na iniciativa e responsabilidade
dos cidadãos?
Enquanto não tomarmos
consciência das difi culdades de qualquer dessas vias, e
da necessidade de escolher, continuaremos a enganarnos
a nós próprios – a gritar uns com os outros, para não
termos de discutir. Historiador

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